• Resgatar a herança da sabedoria também é constituir patrimônio

Resgatar a herança da sabedoria também é constituir patrimônio

13 de junho de 2017 \\ Artigo Daniella Sinotti

As histórias contadas por Dona Benta, no Sítio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato, encantam crianças há décadas e fazem parte do imaginário afetivo de algumas gerações. A avó que compartilha a sua sabedoria através da oralidade representava um bom costume que foi se perdendo ao longo dos anos. O aumento da população idosa no Brasil suscita uma questão importante sobre a necessidade de garantir uma vida inclusiva para os mais velhos. Dados do IBGE indicam que entre 2005 e 2015, a proporção de idosos de 60 anos ou mais, na população do País, passou de 9,8% para 14,3%. 
As grandes mudanças de comportamento, sobretudo por conta da tecnologia, facilitaram o acesso à comunicação, mas afastaram o hábito de ouvir histórias, conversar mais, reunir as pessoas de forma a aumentar a compreensão sobre a história de vida de cada membro familiar. As pessoas passam grande parte de sua vida com foco em amealhar os patrimônios que podem ser comprados, em detrimento do grande patrimônio cultural, histórico, familiar e afetivo.
Ainda que haja um grande movimento de consciência sobre a necessidade de cultivar bons hábitos alimentares e de prática de atividades físicas em todas as fases da vida, temos descuidado de fatores importantes e que contribuem para a saúde geral da população da terceira idade. Compartilhar sabedoria e ouvir histórias é um modo de ter acesso aos recursos íntimos, aflorando as emoções e a imaginação e aumentando o sentido de pertencimento.
Ao preservar as tradições do núcleo familiar, aumenta-se a compreensão sobre o que foi vivido pelos antepassados, o que é de grande valor, não apenas para que os mais velhos consigam compartilhar sua sabedoria, mas para que a ancestralidade seja compreendida de forma mais ampla. Quando a história familiar é renegada, uma parte da alma de seus membros tende a se perder, num emaranhado de difícil acesso.
Assim como o vento, os dramas familiares costumam sair pela porta e entrar pela janela. A psicoterapia sistêmica trata, entre outras questões, das “sagas familiares”, que são histórias e dramas que se repetem em uma família. É bastante comum que alguns membros revivam um problema grave que também afetou um antepassado, fazendo renascer uma ferida que não foi curada no núcleo familiar.
Honrar e respeitar a hierarquia, aceitar e compreender a história familiar são formas de preparar psicologicamente os mais novos para os desafios da vida, revelando heranças capazes de afetar as gerações futuras. Compartilhar a sabedoria e entrar em contato com a própria dor são formas de resignificar o sentido da vida, saindo da superficialidade e ampliando a compreensão das leis que regem a existência humana.



Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.