Bastidores & Política

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Azevedo Júnior

Enquanto isso, na economia...

27 de julho de 2015 \\ Bastidores & Política

A coleta semanal de expectativas feita pelo Banco Central no último dia 18 é de amargar (ainda mais) as segundas-feiras, principalmente nas últimas 14 semanas. As previsões para PIB e IPCA em 2015 só pioram a cada período – agora, os analistas de mercado esperam queda de 1,7% na atividade e uma inflação de 9,15% em dezembro.

Quem superar o choque e conseguir passar para segunda linha do documento do BC vai encontrar lá um troço diferente, um bocado mais doce. As expectativas para a inflação de 2016 caíram mais um pouco – nesta última semana foram para 5,40%, contra 5,44% da semana anterior. Esta acomodação é música para os ouvidos do BC e da equipe econômica.

"Isso é uma excelente notícia porque abre a possibilidade para uma queda de juros”, disse em rede nacional uma fonte graduada do governo. Quando isso pode acontecer? "Quando a economia apresentar as seguintes condições: que as projeções do BC estejam abaixo da meta (IPCA) e que haja uma plena ancoragem de expectativas em todos os pontos do horizonte", explica.

Para salvar trabalhadores do desemprego, as empresas terão que provar que estão com caixa no vermelho e com a corda no pescoço. Esta é a regra básica imposta pelo Ministério do Trabalho para adesão ao Programa de Proteção ao Emprego – solução de “braço curto” criada pelo governo para estancar o estouro do desemprego. Para salvar a economia brasileira, não há plano de proteção ou qualquer coisa que o valha. Ao contrário, até agora, vai ficando claro que todas as tentativas de resgate da estabilidade têm dado com os burros n’água.

A prévia da inflação de julho medida pelo IBGE alcançou 9,25% no acumulado em 12 meses. Até o início desta semana, a estimativa dos economistas consultados pelo Banco Central para o ano todo estava em 9,15%. Com estes preços corroendo a renda, o número de brasileiros passando cheques sem fundos no primeiro semestre de 2015 apresentou a segunda maior alta da série histórica do Serasa Experian (desde 1991), ficando atrás apenas do primeiro semestre de 2009.

A gestão das contas públicas ficou tão comprometida que o governo vai correr o risco de se dar um tiro no pé, reduzindo a meta de superávit primário para este ano – a economia nos gastos para o pagamento dos juros da dívida pública. Com as receitas de impostos em queda livre e a rebeldia do Congresso Nacional com as medidas de ajuste fiscal, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, perdeu a batalha do discurso da austeridade como condição para a recuperação. O anúncio deve ser feito no final da tarde desta quarta-feira (22).

A melhora não só está mais distante como ainda vem chegando motivo para piorar. A mudança da meta de corte nos gastos pode até gerar alguma noção de realismo do governo em assumir o que é possível e não o que é ideal. Quando foi anunciada, a meta de economizar 1,1% do PIB deste ano levava em consideração uma alta de 1% da atividade e de 5,6% da arrecadação. A economia vai encolher até 2% e a receita com impostos deve encolher 3%.

Para não gerar a percepção de descontrole e perda de rumo, o governo vai ter que praticamente "desenhar" para explicar seus planos e, mesmo abrindo mão da meta mais rigorosa, mostrar que o ajuste fiscal será mantido. Essa adaptação à realidade mais penosa vai se estender ao Banco Central, inevitavelmente. Com a menor colaboração da política fiscal, o juro vai seguir carregando sozinho a tarefa de baixar a inflação.

Com tantos burros n’água, a gestão de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda vai perdendo a imunidade dando lugar ao pensamento dos colegas de governo que sentam mais perto da presidente Dilma Rousseff. Nelson Barbosa, do Planejamento, e Aloízio Mercadante da Casa Civil, que escapam da ortodoxia econômica, vão diminuindo o espaço de credibilidade de Levy. Enquanto o risco político amedrontar mais do que o risco econômico, o Brasil vai adiando o fim da crise e os brasileiros vão ficando menos protegidos do desemprego e das contas mais caras. 

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