Milton de Britto

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ONTEM E HOJE

29 de maio de 2013 \\ Milton de Britto

Outrora jovem, garboso, bonito, era o centro das atenções, de muitas mulheres. Aos dezoito anos, quando passava pela rua ou pelos clubes, que frequentava, servia de comentários delirantes de adolescentes, que suspiravam – “que homem!” “Este é o genro que mamãe queria!” e tantas outras exclamações. Não se aproveitou desta situação, para aventuras amorosas irresponsáveis ou paqueras inconsequentes, que pudesse deixar corações sofridos, contudo, conquistou inúmeras namoradas, fontes de inspirações para os seus poemas, após desfrutar de beijos quentes, abraços e loucuras de amor, em leitos de cetim. Aos quarentas anos, deixou de ser caça. Como caçador amou e foi amado, até pelo vigor que ainda sustentava. Já não era a atenção das curvilíneas garotas, que desfilavam pelos shoppings. Também não era o escárnio de olhares desprezíveis, de quem rejeita a ousadia de um simples olhar, sem malícia, de um homem que já não guarda em si tanta formosura. Ainda, aos quarenta anos, conheceu Margot, que era bela, de rosto angelical, corpo escultural e estonteante, nos seus dezoito anos, capaz de enlouquecer o mais sossegado dos homens. Ela não o notou, sequer lhe dirigiu um olhar, que percebesse a admiração que lhe era dispensada. Saiu com ar de desprezo, altiva, sustentada por duas pernas, que mais pareciam duas colunas gregas, tamanha a perfeição. O tempo é cruel, assiste a tudo e a todos, impassivo, observando o curso da vida que não para, enquanto a velhice se encarrega de desfigurar a beleza e a rigidez dos músculos. Lembra o poeta –
 “... hoje é um caco velho que não vale nada, tem a cabeça branca e a pele encarquilhada, dá até pena ver o seu estado, pobre coitado, a vida é esta, é um segundo que se vai depressa, todos nós temos os nossos momentos e depois deles é o esquecimento”.
Hoje, ele, aos setenta, é o desprezo de todos os olhares, não sendo diferente daquela que foi fonte de desejos e olhares maliciosos, que aos quarenta e oito anos, tem aparência desgastada, pela vaidade, e pelo fato de não ter sido amada como devia, tampouco amou. Não se cuidou e, precocemente envelheceu. Ambos convivem com a realidade da senilidade, responsável pela deformidade das formas, que faz feio o mais bonito, flácida a musculatura, opaca a visão e trôpego o andar, outrora firme e vaidoso. Pobre Margot, que amarga a indiferença de uma plateia volúvel, que aplaude o espetáculo da primavera, silencia no outono e ignora o declínio do inverno, a que estão sujeitos os seres humanos. Na passarela da vida, o desfile é passageiro, mutável, volúvel e tênue, onde caminham todos, sem exceção. Ontem - a admiração. Hoje - a indiferença, o desprezo e o escárnio.
 

Milton de Britto