Milton de Britto

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MINHA RELAÇÃO COM A RUA DE AURORA

22 de julho de 2013 \\ Milton de Britto

Os meus primeiros contatos com a Rua D’Aurora, ou Rua de Aurora, foi na década de 40, quando meu pai se instalou com a família na Rua Direita, em um Casarão com um quintal que se estendia até a Rua de Aurora, como alias, ocorria com as maiorias das casas daquele logradouro. A porta da cozinha de nossa residência dava para uma área grande, com árvores frutíferas e ao fundo um portão que dava acesso para a Rua de muitas histórias. Com apenas quatro anos de idade, minha mãe, ainda viva, convalescia de uma doença que a levaria para a eternidade, em 1945. Meu pai presenteara a mim e a meu irmão Edinho, com um carneiro, para cada um, e nós íamos até o Rio de Jacuipe, andando, para dar banho nos ovinos. Lembro que algumas vezes eu ia montado, nos acompanhando um caseiro, contratado pelo nosso genitor. Sempre que seguíamos, encontrávamos com o “doido”, inofensivo, chamado “Seca Fonte”, que até hoje não sei o porquê do apelido.
 
Naquele tempo, me lembro de ter visto, do quintal, olhando para o céu, um Zepelin, que não pude deduzir da presença do dirigível, em nossa cidade, o que hoje, imagino que poderiam ser militares alemães, Nazistas, fugindo da segunda guerra mundial, até porque Oficiais graduados foram encontrados em alguns países da América do Sul. Início da década de 50 matricularam-me no Anexo da Escola Normal, que tinha a frente para a Rua Direita e os fundos para a Rua de Aurora, para onde íamos, durante muitas tardes, jogar bola, no Campo do Horto, de muitos amigos e poucas brigas. Ainda me lembro de três colegas, que se tornaram amigos, - Vilobaldo (Viló), hoje – Mestre de Karatê; Gilton, - Comerciante e industrial no ramo de molas para caminhão; e Catarina, Professora e Advogada. Todos, pessoas honradas. 
 
No final da década de 50 comecei a frequentar a casa de meu Tio, Eutropio, mais conhecido como “Dande”, que veio do Quaresma, que, embora casado, matriculou-se no Ginásio Santanópolis, concluindo o curso técnico de Contabilidade, submetendo-se a concurso público, galgando o posto de Fiscal de Rendas, cuja denominação, atual, é Auditor Fiscal, do Estado da Bahia. Exímio violonista deixava-nos estarrecidos, com a execução do repertório de Dilermando Reis. Ele, com certeza, influenciou-me, na minha formação musical, tanto que passei a frequentar a Rádio Sociedade, que ficava no final da Rua Direita (atual Tertuliano Carneiro), com a Praça Fróes da Mota, chegando a fazer parte do seu “Cast”, ainda vestindo calça curta e uma franja ridícula, com a cabeça raspada, que minha madrasta impunha. Fui estudar em Salvador, retornado em 1959 e ai ganhei a Rua de Aurora, que passou a ser a Rua de Nazinha, Deusa e Gaguinha, da casa de Lindaura; da Nega Elisa da casa famosa de número 125; de muitas serenatas e dos encontros com Dimas, no Bar da esquina, para as tocatas e cantorias, que deixou saudade. No
 
Tamarineiro, onde fica hoje o “Ferro Velho”, conheci “Dida”, projetor do Cinema Plaza, de filmes rodados e assistidos, em tardes de aulas enforcadas, para o abraço das namoradas, em encontros inesquecíveis. A Escola anexa se foi, como se foi - o Horto; a casa de Dande; a casa de Lindaura; o 125; o Tamarineiro e as cantorias. Ficou a saudade de Isabel, de corpo escultural, que troquei pelo Rio de Janeiro; ficou o Bar sem Dimas e sem cantorias; a vila Pedro Carneiro, onde instalei meu escritório de Advocacia e ali estive por mais de vinte anos. Resta uma Rua abandonada pelo Poder Público, que permite um trânsito caótico e uma Praça abandonada, feia e ocupada indevidamente, sem qualquer urbanização, numa artéria repleta de atividade comercial, que enaltece a iniciativa privada e degrada a gestão pública de vários anos. Foram muitos e nenhum cuidou de Aurora.
 
Deixo você, Rua de Aurora, consternado. Estou me mudando para a Avenida Getúlio Vargas, com a atividade jurídica e o sonho que não foi de uma noite de verão, mas de toda uma vida.
Feira, 15.06.2013.
   
 
 
 

 

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