Milton de Britto

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MORADORES ILUSTRES DA RUA DIREITA

10 de setembro de 2013 \\ Milton de Britto

A Rua Direita, que é torta no seu traçado urbanístico, abrigou as pessoas mais ilustres e retas de nossa cidade, dentre tantas igualmente nobres, que habitaram esta terra de Santana. Constituída pelas Ruas - Conselheiro Franco e Tertuliano Carneiro, cuja denominação, deduzo, deve-se ao fato de se encontrar à direita da Rua do Meio, que tinha à esquerda a Avenida Senhor dos Passos, principais artérias, do berço de Georgina Erismann. Ainda me lembro, do senhor Nogueira – fotógrafo dos mais requisitados, um dos pioneiros; a família Pinto, de Zé (José Ferreira Pinto), Vice-Prefeito e Vereador de vários mandatos, irmão de “Vinu”, que encantava com sua voz grave e melodiosa, e o mais moço – Moacir, bom colega, do Anexo da Escola Normal, amigo de muita consideração, que se foi para Tanquinho e se fez Vereador e Prefeito, por dois Mandatos, pela retidão de conduta e dedicação com o negócio público; “Reinaldinho”, bom colega e amigo, que não vejo há cinquenta anos; China e Fernando, que se fizeram homens de negócio, que cedia a sua casa para os estudos preparatórios do Colégio, em tardes memoráveis; minha primeira professora de música, cujo nome, não guardo na memória, exemplo de mulher e dignidade; Artur Cordeiro, que gerou prole empreendedora, contribuindo para o progresso do comércio, de presépios memoráveis em noites de Natal, de visita obrigatória, pela sua beleza, quando imperava a religiosidade católica, que unia as famílias, sem dízimos e explorações, com falsos milagres; Tenente Tapioca, que acertava a cabeça de um prego com uma bala, tamanha era sua pontaria e habilidade com arma de fogo; Manoel Justo de Brito, do sobrado onde se instalou, posteriormente o Banco do Nordeste, negociante de gado, que a moratória provocada pela segunda guerra mundial deixou em dificuldades, que se refez, foi industrial e representante de uma das maiores cervejarias do país, que soube educar seus filhos, com retidão de caráter; Dona Pombinha, religiosa, de aulas de catecismo na Igreja dos Remédios, com seu teto coberto de louças de Macau, que resiste, espremida, num largo desorganizado, sem urbanização e urbanidade, no tumulto de carros desalinhados e desorganizados; Dr. Pirajá, médico dedicado, de prosas hilariantes, que tranquilizava o paciente, com estórias de seu Citroen de piruetas impossíveis, de filhas lindas e comportadas, em suas saias plissadas de vínculos impecáveis; Seu Lolô, (Heráclito de Carvalho) cidadão respeitado, que por ser Carvalho, tinha a retidão e a resistência da árvore, que foi Prefeito por dois mandatos e muito fez pelo município; Seu Maurílio, da “Majestosa”, que me deu a oportunidade do primeiro emprego, rigoroso na disciplina, onde encontrei Viló, amigo, meu Mestre de Karaté; Missinho, amigo de infância, que prosperou no ramo de couros e Abílio Ribeiro, no seu casarão na esquina do Beco do França, de onde saía o Aguadeiro, para fornecimento de água potável para o consumo, do alferes, da puxinha (cocada puxa) e do suspiro, confeccionados pela sua esposa, para a complementação do orçamento doméstico, alegria das crianças, que recebia os netos Edu e Renato, vindos de Salvador, com brinquedos que nos encantavam; Rua do Cinema Santana, de matinês inolvidáveis, de Flash Gordon, Roy Rogeres e dos Três Patetas; da Euterpe e 25 de Março, de gloriosos bailes de Micareta, ao som de “Tomara que chova, três dias sem parar/ a minha grande mágoa/ é lá em casa não ter água nem pra me lavar...” (interpretação de Emilinha Borba), ou “Guardo ainda a serpentina que ela me atirou/ ela era uma linda Colombina e eu um pobre Pierrô...” . Rua de Francisco e Colbert Martins, figuras das mais ilustres, de honradez invejável a ser seguida por quem possa ter vergonha na cara. Não posso esquecer Tibúrcio Fernandes, que soube educar seus filhos, exemplos de retidão e companheirismo; do Hotel Fernandes, vizinho à casa de Seu Lolô; da Igreja Batista, da residência do Sr Dálvaro (pai de Hugo, Antonio e José Navarro), homens de letras, abnegados juristas e mestres; da Padaria Duas Américas (que tinha o melhor pão da cidade e, me diz Antonio Fernandes, (até hoje não encontro um pão gostoso igual àquele); da residência de João Carneiro (pai de João Durval), de muitas histórias. Finalmente, vejo na esquina com a Praça Fróes da Mota, o Prédio que abrigou a primeira Emissora de Rádio, desta Feira, que de Santana muitos têm esquecido, onde encontrei Chico Baiano, Dudinha, Toninho e Maninho, mestres do violão e do bandolim, de Geraldo Borges, de locução perfeita e canto maravilhoso, com o repertório de Gregório Barrios. Rua Direita, mando-te um recado: Ali, na esquina com a Rua que abriga a Escola Maria Quitéria, vivi os meus últimos dias de boemia, no Bar Xangô e na Casa de Lindaura, onde ficou a minha juventude e a minha saudade eterna, de um tempo que não volta mais.

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