APRENDENDO COM OS PEQUENOS

01 de maio de 2014 \\ Osmando Barbosa

De todas as coisas que devo a Deus, nessa minha passagem pela terra, talvez a mais importante fosse ter me dado à oportunidade de ter os filhos que tenho e da forma que os tive. Não leitor, fique tranquilo, eles não foram concebidos de uma forma anormal, ou excêntrica. Falo da diferença de idades. Quando minha esposa engravidou a segunda vez, nosso filho mais velho estava com oito anos e lembro claramente de ter amaldiçoado minha sorte. “Mas, como? Logo agora? Neto já tem oito anos? Que azar!” Estas, possivelmente, foram as palavras mais “doces” que pronunciei. Como eu estava enganado! Aquele era o prenuncio que dias perfeitos. Nós três só ganhamos com a chegada desse novo morador na casa “Barbosa Caldas”. 
 
Hoje, três anos depois, aprendi a gostar mais dessas jovens criaturas e não canso de imaginar como tornar essa nova geração melhor que a nossa. Muito se tem falado do consumismo exacerbado e de como estamos criando nossos filhos nesta ideia. Apesar dos pais se queixarem de que os pequenos pedem a todo o momento para comprarem coisas, o certo é que não nasceram assim. Adquirem, deixam de lado, para logo em seguida requisitarem outro produto.
 
Os adultos também têm agido desta maneira. Estão sempre comprando e procurando atender aos desejos das crianças. E tudo se transforma numa bola de neve, que parece nunca ter fim ou bastar. Talvez possamos aprender com os pequenos algumas coisas.
 
Passeando pelo centro de minha cidade (Valença, distante da Princesinha do Sertão 200 quilômetros), observei outro dia um casal que levava seu filho, provavelmente de cinco anos, a uma loja de brinquedos para comprar seu presente de aniversário. Assim que chegou, disse querer um jipe que custava mais de mil reais. Diante da negativa seguida de uma justificativa, sem stress algum, passou a olhar com atenção vários itens. Os pais ofereciam um ou outro que cabia no orçamento, até que triunfante disse ter achado o que queria: um baldinho com soldadinhos. Há tempos havia pedido para a mãe este brinquedo.
 
Como estava muito abaixo do orçamento previamente combinado, os pais pensaram em permitir-lhe que escolhesse mais alguma coisa, mas um deles desistiu da ideia. Afinal, o menino havia escolhido o que queria, parecia muito satisfeito e o combinado era apenas um brinquedo. Na cabeça dos pais, devido ao valor, era muito pouco aquilo. Puderam, no entanto, rapidamente não cair no engano de ensinarem o filho que o que vale num brinquedo é o quanto ele custa, não o que significa.
 
Conversando com os pais, fiquei sabendo que, meses atrás, este sábio garotinhohavia surpreendido sua mãe numa outra situação de compra. Diante de ele pedir muito que queria um brinquedo novo qualquer, ela o levou a uma loja de R$1,99. Depois de muito olhar os produtos e sem conseguir se decidir, justificou-se: “Mãe, eu já tenho tudo!” Com sua pouca idade, este menino conseguiu discriminar o que realmente precisava: Um brinquedo diferente e não simplesmente comprar algo. Ou, indo além, na ânsia de comprar ficou pedindo, mas ao constatar a realidade viu que não era necessário.
 
Quando me deparo com histórias assim, vejo o quanto o desejo de compra é maior nos pais, cujo comportamento acaba influenciando os filhos. Lembro-me de uma mãe que comia os vários lanches de uma rede de fastfood para conseguir todos os brindes para sua pequena. Pior, recordo-mede quase ter passado por isso, quando tinha que me controlar para não fazer coleção dos personagens de Star Wars para nosso filho mais velho que nem sequer tinha muito interesse nisso. 
 
Se não tivermos cuidado, o que vamos ensinar aos nossos filhos? Provavelmente que não basta ter um, é preciso ter todos. Ou seja, adquirir muito torna-se uma necessidade.
 
Quem sabe se ajudarmos nossos pupilos a discriminarem o que realmente querem ou precisam, eles não se tornarão pessoas compulsivas em comprar. Como este garoto de cinco anos. Este exercício, no entanto, deve partir dos adultos, cujos exemplos têm um significado importante na conduta dos pequenos.
 
 
Osmando Barbosa Caldas Filho